Posicionamento

18 editores pedem demissão após revista cobrar US$ 2.990

Statistics and Computing vai exigir taxa de publicação a partir de 2027. Editores associados renunciaram em bloco: entenda o que muda pra quem publica.

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Você está terminando a análise estatística do seu artigo e começa a pensar em onde publicar. Em 8 de julho, dezoito editores associados da revista Statistics and Computing anunciaram que vão renunciar ao cargo. O motivo: a Springer Nature, editora do periódico, decidiu que a revista vai se tornar totalmente de acesso aberto a partir de 2027, com uma taxa obrigatória de publicação. Uma APC (article processing charge) é a cobrança feita ao autor para que o artigo seja publicado em acesso aberto, e ela vai custar US$ 2.990 por artigo. Se você pesquisa em estatística, ciência de dados ou qualquer área que dependa de revistas híbridas, esse caso mostra uma tensão que pode chegar à sua área também.

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O que aconteceu

A Statistics and Computing funcionava até agora num modelo híbrido: o acesso aberto era opcional, e quem não pagasse a taxa simplesmente publicava com o artigo atrás de paywall. A partir de julho, toda submissão que resultar em publicação será sujeita à taxa de US$ 2.990, sem a opção de publicar de graça. Existe isenção para autores correspondentes de países de baixa renda, segundo o site da Springer Nature, mas fora dessa exceção, pagar deixou de ser escolha.

Em carta ao editor-chefe Ajay Jasra, os 18 editores associados chamam a decisão de “irreconciliável com nossa visão de ciência”. Segundo o Retraction Watch, a revista vai se juntar a outras duas publicações de estatística em acesso aberto da Springer Nature: uma cobra US$ 1.590, a outra não cobra nada.

Robin Ryder, matemático do Imperial College London e um dos editores que renunciou, contou que a Springer Nature avisou os editores em maio. “Meu entendimento é que [Jasra] os alertou contra essa mudança, mas eles ignoraram o alerta”, disse Ryder. Jasra não quis comentar.

Por que isso importa pra você

O caso da Statistics and Computing não é isolado: ela é a quinta revista do ano a enfrentar uma onda de renúncias em massa, segundo o levantamento do Retraction Watch. Se você depende de revistas híbridas pra publicar, vale entender o que está em jogo antes de escolher onde submeter.

  1. Se você está submetendo um artigo agora: confira se a revista de destino tem modelo híbrido ou APC obrigatória, e se existe isenção pra sua situação. A regra pode mudar entre a submissão e a aceitação, como aconteceu aqui.
  2. Se você está montando o orçamento de um projeto: se você prevê submeter em revistas de acesso aberto, vale considerar a taxa de publicação no planejamento financeiro do projeto, ao lado dos custos de coleta e análise.
  3. Se você está escolhendo entre revista de sociedade científica e revista comercial: Ryder cita o Journal of the Royal Statistical Society e o Annals of Statistics como exemplos que não cobram APC. Vale mapear as opções da sua área antes de decidir.

O estatístico Christian Robert, que publica com frequência na revista, escreveu em seu blog que a Springer Nature estaria “sequestrando” o periódico ao tornar a APC obrigatória. Já Andrew Gelman, professor de estatística na Columbia e conselheiro da revista, disse que seria bom se ela migrasse para um sistema aberto e gratuito, citando o Journal of Machine Learning Research como exemplo.

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O que está por trás dessa cobrança

Melissa Fearon, diretora de publicações da Springer Journals, disse ao Retraction Watch que a mudança faz parte de um “compromisso mais amplo com o aumento do acesso à pesquisa e o apoio à transição para a ciência aberta de forma responsável e sustentável”. Segundo ela, as APCs sustentam o “investimento contínuo” em avaliação de integridade editorial, revisão por pares e outros sistemas que garantem que os artigos sejam “robustos, descobríveis, acessíveis e preservados a longo prazo”. Fearon também afirmou que, por meio de acordos institucionais, preços escalonados por país e isenções de taxa, cerca de 40% dos artigos de acesso aberto publicados pela Springer Nature chegam aos autores gratuitamente ou a custo muito baixo.

Os editores não compram esse argumento. A carta de renúncia é direta: “o sistema acadêmico de publicação atual é construído sobre grandes quantidades de trabalho não pago e estabelece uma barreira financeira para visualizar os artigos de pesquisa finais.” Quando as agências de financiamento pressionam por pesquisa acessível, alcançar isso via APC “simplesmente move a barreira financeira para outra parte do sistema”. Ou seja: quem antes pagava um paywall pra ler, agora é o autor que paga pra publicar. A exclusão muda de endereço, não desaparece.

Ryder foi ainda mais direto: “eu nunca paguei para publicar um artigo numa revista de estatística, e acho que muitos dos meus colegas diriam o mesmo. Na nossa área, não faz sentido pagar por acesso aberto, já que nossos artigos ficam disponíveis de graça no arXiv, e a versão do arXiv é sempre muito próxima da versão da revista.”

Na minha experiência acompanhando esse debate, o que mais chama atenção aqui não é a taxa em si (ela existe em várias áreas), mas o tamanho da revolta: 18 dos 160 editores associados é uma fração pequena, mas Ryder disse esperar que mais editores renunciem até o fim do ano. Quando uma comunidade científica inteira já resolveu o problema do acesso sozinha (publicando no arXiv), cobrar por algo que ela considera redundante tende a esvaziar a revista, não a fortalecer.

Próximos passos

Se você quer se posicionar diante desse tipo de mudança na sua área, alguns passos concretos ajudam:

  1. Verifique o modelo de publicação da revista antes de submeter: híbrido, totalmente aberto com APC obrigatória, ou sem taxa.
  2. Pergunte sobre isenções direto à editora, especialmente se você está vinculada a uma instituição de país de baixa ou média renda.
  3. Mapeie revistas de sociedades científicas na sua área, como Ryder fez ao citar o Journal of the Royal Statistical Society e o Annals of Statistics: esses dois exemplos não cobram APC.
  4. Acompanhe o movimento dos editores: se eles criarem uma revista nova, como Ryder sugeriu que pode acontecer, isso pode se tornar uma opção séria e mais barata pra publicar.

A renúncia em massa dos editores da Statistics and Computing tem efeito a partir de 31 de dezembro de 2026, ainda dá tempo de acompanhar se a revista recua ou se os editores criam uma alternativa. Fica valendo a lição de fundo: financiamento de pesquisa e política editorial afetam diretamente onde e como você publica, e vale entender esse cenário antes de escolher. Se esse tema te interessa, veja também SBPC debate: fomento à ciência ainda é frágil no Brasil.

Fonte: The exploitation still remains: Stats journal associate editors resign over $3,000 publishing charge, Retraction Watch

Perguntas frequentes

Por que os editores da Statistics and Computing renunciaram?
Porque a Springer Nature anunciou que a revista vai se tornar totalmente de acesso aberto a partir de 2027, com taxa obrigatória de US$ 2.990 por artigo publicado. Os editores consideram isso incompatível com a visão deles de ciência acessível.
O que é APC (article processing charge)?
É a taxa de processamento de artigo, cobrada do autor para que o texto seja publicado em acesso aberto. Na Statistics and Computing, ela passa a ser obrigatória: hoje o modelo é híbrido e permite publicar sem pagar, deixando o artigo atrás de paywall.
Isso significa que vou precisar pagar para publicar em qualquer revista?
Não necessariamente. Algumas revistas de sociedades científicas, como o Journal of the Royal Statistical Society e o Annals of Statistics, citadas por Ryder, não cobram APC. O movimento da Statistics and Computing reflete uma escolha editorial da Springer Nature, não uma regra geral da publicação científica.

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