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Por que pagamos para sentir medo no cinema, segundo estudo

Um artigo do The Gospel Coalition analisa o boom do gênero horror e propõe: o que buscamos no medo controlado da tela é um eco distorcido do temor a Deus.

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Em janeiro, um outdoor de 15 pés estampou um Ralph Fiennes ensanguentado ao lado de colunas de caveiras humanas, circulando pelas ruas de Londres. O anúncio era do quarto filme da franquia 28 Days Later, e a frase ao lado dizia: “Fear is the new faith”, o medo é a nova fé. Um artigo do The Gospel Coalition parte dessa cena para perguntar algo que passa batido na maioria das análises de cinema: por que compramos ingresso para sentir algo que, em qualquer outra circunstância, tentaríamos evitar a todo custo?

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Masoquismo benigno é o termo que o psicólogo Paul Rozin usa para descrever esse fenômeno: o corpo reage ao susto como se o perigo fosse real, mas uma parte da mente sabe que não é, e dessa contradição nasce prazer, não sofrimento. Se você já saiu de uma sessão de terror rindo com os amigos, sentindo aquela mistura de alívio e euforia, seu cérebro fez exatamente esse cálculo: medo sob controle, e por isso, medo com prazer.

O que o artigo observa

O texto usa 28 Years Later: The Bone Temple como ponto de partida. O filme acompanha um garoto de 12 anos sendo iniciado num culto sádico liderado por Sir Lord Jimmy Crystal, um líder carismático, no que o artigo lê como uma ilustração de como o medo pode funcionar como cola social, mantendo pessoas fragmentadas juntas em torno de quem promete proteção. É uma leitura clássica do gênero zumbi/pós-apocalíptico: o monstro de verdade nunca é a criatura infectada, é o ser humano que sobra.

Mas o artigo aponta algo mais interessante que essa observação já batida. Vivemos numa cultura que o filósofo Paul Virilio chamou de “administração do medo”, cercados de ameaças reais o suficiente para nos deixar exaustos. A lógica esperada seria fugir de qualquer coisa que lembre terror. Só que o gênero horror está vivendo o oposto: filmes como Sinners e Weapons vêm sendo reconhecidos em temporada de premiação, algo raro historicamente para esse tipo de produção.

Stephen King, citado no artigo como autoridade do gênero, propõe uma hierarquia de três camadas para explicar o que sentimos. Terror é a antecipação, o “está vindo” que trabalha a imaginação antes de qualquer coisa acontecer. Horror é o “está aqui”, o choque do momento revelado. E o gross-out é a repulsa física pura, o “é revoltante”. Para King, o terror é a emoção mais refinada das três: quando um filme não consegue provocar terror, recorre ao horror, e quando nem isso funciona, sobra o gross-out.

Por que isso importa pra você que estuda comportamento humano

Se você pesquisa psicologia, cultura, mídia ou religião, esse tipo de análise cruza pelo menos três áreas ao mesmo tempo, e vale separar o que dá pra investigar com método do que fica só na especulação de ensaio cultural.

  1. Se seu tema é consumo de mídia ou entretenimento: o conceito de masoquismo benigno de Rozin oferece um mecanismo psicológico testável (a discrepância entre resposta corporal e avaliação cognitiva de risco), diferente de explicações puramente culturais ou sociológicas para o apelo do terror.
  2. Se seu tema é religião ou espiritualidade: o artigo propõe que o fascínio pelo sobrenatural no cinema seria um “eco caído” do temor a Deus, categoria que Rudolf Otto descreveu como mysterium tremendum et fascinans, mistério que aterroriza e fascina ao mesmo tempo. É uma hipótese interpretativa, não um dado empírico, e por isso pede o cuidado de tratá-la como tal numa pesquisa acadêmica.
  3. Se seu tema é ficção especulativa ou apocalíptica: o texto menciona uma leitura sobre fantasias apocalípticas em jovens homens (violência sem culpa, ausência de restrições morais cotidianas) que merece verificação empírica própria antes de qualquer generalização.
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O que me chamou atenção nessa leitura

Confesso que a parte que mais me interessou não foi a teologia do artigo (que é, no fim, uma tese de fé, legítima no espaço dela, mas fora do que a pesquisa acadêmica consegue confirmar ou refutar). Foi a definição de Otto sobre o numinoso: uma experiência que não cabe em categoria nenhuma que já temos, e que por isso produz ao mesmo tempo pavor e atração.

Isso tem uma aplicação direta pra quem estuda qualquer fenômeno cultural que mistura repulsa e fascínio, seja terror, true crime, ou mesmo certos nichos de curiosidade científica sobre catástrofe e extinção. O que o artigo sugere, e que vale testar em dados reais, é que talvez não busquemos o medo pelo medo. Busquemos a sensação de encontrar algo que ultrapassa nossa capacidade normal de entender, sob condições que a gente mesmo controla. Faz sentido pensar assim quando você lembra que o próprio ato de assistir terror no cinema já pressupõe um controle mínimo: dá pra pausar, sair da sala ou desligar a tela quando quiser.

O que não dá pra fazer, se você for usar esse material numa pesquisa, é tomar a leitura teológica do artigo como conclusão científica. Ela é uma interpretação, coerente dentro da tradição cristã que a produziu, mas o texto não traz dado empírico que a sustente. Separar isso com clareza é o tipo de rigor que distingue um ensaio de opinião de uma fonte primária pra revisão de literatura.

Próximos passos

Se esse tema cruzar com sua pesquisa, aqui vai um roteiro rápido para não se perder entre o que é observação psicológica testável e o que é interpretação de autor:

  1. Separe as camadas do artigo antes de citar qualquer trecho: distinga o que vem de Rozin (psicologia experimental), o que vem de King (teoria de autor sobre o próprio ofício) e o que vem da leitura teológica do próprio texto.
  2. Se for citar o conceito de masoquismo benigno, vá direto à fonte de Rozin, não ao artigo secundário que o resume.
  3. Se seu recorte é sobre religião e cultura pop, trate a interpretação de Otto e da tradição cristã como objeto de análise (o que essa comunidade interpretativa diz sobre o fenômeno), não como explicação causal do fenômeno em si.
  4. Desconfie de generalizações sobre “jovens homens” e fantasia apocalíptica sem fonte primária, checando se existe estudo empírico por trás ou se é apenas leitura de ensaio.

Se você está pensando em como equilibrar leitura crítica de fontes de opinião com rigor de pesquisa, vale ler Chorar não é falta de fé: o que a ciência do luto ensina, que trabalha esse mesmo tipo de tensão entre experiência subjetiva e evidência.

Fonte: Why We Pay to Be Scared, The Gospel Coalition

Perguntas frequentes

Por que as pessoas gostam de filme de terror?
Segundo o psicólogo Paul Rozin, citado no artigo, o prazer vem do que ele chama de 'masoquismo benigno': o corpo reage como se o perigo fosse real, mas a mente sabe que não é, e dessa mistura nasce uma sensação controlada de domínio sobre o próprio medo.
O que Stephen King diz sobre os tipos de medo no terror?
King divide o gênero em três camadas: terror (a antecipação de que algo vai acontecer), horror (o choque da revelação) e o 'gross-out' (a repulsa física). Para ele, o terror é a emoção mais refinada das três, e o gross-out é o recurso de quem não conseguiu as outras duas.
O que é o conceito de numinoso, de Rudolf Otto?
É a experiência de encontrar algo totalmente Outro, que não cabe nas categorias normais de compreensão. Otto descreve isso como 'mysterium tremendum et fascinans', um mistério que ao mesmo tempo aterroriza e fascina, e o artigo usa esse conceito para explicar por que o terror de qualidade nos atrai apesar do medo.

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