Jornada & Bastidores

Chorar não é falta de fé: o que a ciência do luto ensina

Uma resenha cristã sobre lamento vira ponte para pensar como pós-graduandos lidam com perda, luto e exaustão emocional sem romantizar o sofrimento.

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Você já ouviu alguém dizer, sobre uma fase difícil da pós, que “no fim vai valer a pena”? Essa frase, tão comum entre orientadores e colegas, é o retrato de um problema maior: a ideia de que sofrimento acadêmico só serve se vier disfarçado de otimismo. Uma resenha recente do The Gospel Coalition, sobre o livro Free to Weep: Finding the Courage to Grieve and Embracing the God Who Heals, de Brittany Lee Allen, oferece um contraponto que vale a pena trazer pra dentro da pós-graduação. O Lamento é uma prática espiritual de reconhecer a dor abertamente, sem pressa de resolvê-la ou disfarçá-la. Se você está atravessando uma fase difícil no mestrado ou doutorado, ou orienta alguém que está, esse conceito muda a forma como você lida com o próprio cansaço.

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O que a resenha discute

A autora do livro, Brittany Lee Allen, viveu dor crônica e perdeu filhos por aborto espontâneo. Nesse percurso, ela recebeu comentários que minimizavam sua dor: pessoas bem-intencionadas tentavam empurrá-la direto para a “alegria”, sem deixar espaço para o luto. A resenha descreve como isso a levou a acreditar, por um tempo, numa espécie de “evangelho da prosperidade emocional”, a ideia de que cristãos precisam estar sempre alegres, mesmo em perda profunda.

O livro propõe o oposto: a fé não exige negar a dor. A resenha cita exemplos bíblicos de lamento (Davi, Ana, Jeremias) como evidência de que expressar sofrimento sempre fez parte da experiência espiritual, e que evitar isso, em nome de uma autossuficiência forçada, cria um buraco na forma como lidamos com perdas.

Por que isso importa pra você que está na pós

Trocando o vocabulário religioso pelo vocabulário da vida acadêmica, a mensagem central se aplica quase sem ajuste. Pós-graduação tem perdas reais: prazo perdido, projeto que não funciona, artigo rejeitado, relação com orientador que desgasta, e às vezes perdas que não têm nada a ver com a pesquisa, mas afetam ela mesmo assim.

Trazendo essa lógica pra pós, ela pode aparecer em situações como estas:

  1. Quando você não entrega o que planejou. Uma reação possível é se cobrar por não estar motivada o suficiente, em vez de reconhecer que a semana foi difícil por um motivo real.
  2. Quando um colega compartilha uma dificuldade. Uma resposta possível é minimizar (“também já passei por isso, e nem foi tão ruim”), quando o que ajuda de fato é simplesmente ouvir.
  3. Quando você compara sua trajetória com a de outra pessoa do programa. Medir sofrimento contra o de outra pessoa raramente ajuda a resolver o seu.
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O ponto que mais me chama atenção nessa discussão

O que mais me marcou na resenha foi a ideia de que “muitas vezes o ponto do sofrimento não é descobrir por que estamos sofrendo, mas quem está com a gente nesse sofrimento”. Transportando isso pra pós, tem uma pressão enorme para explicar racionalmente cada dificuldade: por que a produtividade caiu, por que o projeto não avançou, por que bateu o cansaço. Às vezes não tem explicação clara, e insistir em achar uma só adia o que realmente resolveria algo, que é buscar apoio.

Não significa abandonar método ou disciplina. O Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) existe justamente para dar estrutura em fases difíceis, não para fingir que elas não existem. Organizar a rotina numa semana ruim é diferente de negar que a semana foi ruim. São coisas que convivem, não que se excluem.

Próximos passos

Se você reconheceu alguma dessas situações, aqui vai um checklist simples pra essa semana:

  1. Nomeie, pra você mesma, o que está pesando agora, sem qualificar se “é motivo suficiente” pra estar cansada.
  2. Se um colega compartilhar uma dificuldade, resista ao impulso de minimizar ou comparar, e apenas escute.
  3. Separe o que exige ação prática (ajustar cronograma, conversar com orientador) do que só precisa de espaço pra ser sentido.
  4. Se a dificuldade for recorrente, pense em quem você pode chamar pra conversar sobre isso, dentro ou fora da universidade. Buscar apoio não é fraqueza, é manutenção.

Reconhecer a dificuldade não é o oposto de seguir em frente. Muitas vezes é o que torna possível seguir em frente de forma sustentável. Se esse tema te interessa, vale ler O efeito tesoura na pós: como o viés de gênero opera, que discute outra camada de dificuldade que costuma ficar invisível dentro dos programas de pós-graduação.

Fonte: Free to Weep: Finding the Courage to Grieve and Embracing the God Who Heals, The Gospel Coalition

Perguntas frequentes

É sinal de fraqueza chorar ou desabafar sobre as dificuldades do mestrado ou doutorado?
Não. Reconhecer a dificuldade é diferente de desistir dela. A resenha analisada aqui defende justamente isso: nomear a dor não é falta de fé, é parte do processo de lidar com ela. Na pós, negar o cansaço não faz ele desaparecer, só adia o momento de lidar com ele.
Por que às vezes as pessoas minimizam o sofrimento de quem está na pós-graduação?
Muitas vezes por desconforto, não por falta de cuidado. É mais fácil dizer 'vai passar' do que sentar com a dor de outra pessoa. O texto original chama isso de pressa em levar o outro direto à alegria, sem passar pelo luto.
Comparar minha dificuldade com a de outros colegas de pós ajuda ou piora?
Costuma piorar. A ideia central do livro resenhado é que sofrimento não é competição: cada pessoa carrega o peso que carrega, e comparar apenas desvia a atenção de resolver o que está na sua frente.

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