Posicionamento

Preprints: as 6 medidas que podem mudar sua publicação

Documento do INASP propõe 6 medidas para financiadores e governos apoiarem preprints. Entenda o que muda para quem publica ciência hoje.

preprints acesso-aberto publicacao-cientifica politica-cientifica

As Taxas de Processamento de Artigos (APCs) consomem somas enormes do orçamento de pesquisa mundial, e quem não pode pagar continua fora do jogo do Acesso Aberto. Em 15 de julho, o SciELO em Perspectiva publicou um artigo de Haseeb Md. Irfanullah e Alice Chadwick El-Ali apresentando o novo documento de políticas do INASP (International Network for the Availability of Scientific Publications), com seis medidas para financiadores e formuladores de políticas apoiarem o compartilhamento de preprints. Um preprint é um artigo de pesquisa publicado num servidor aberto antes da avaliação por pares, disponível de graça e sem esperar o cronograma de um periódico. Se você já sentiu a demora entre terminar uma pesquisa e vê-la circular, isso te afeta direto.

Imersão Vira Artigo: o artigo científico que já existe dentro do seu trabalho sai em 1 dia. Ao vivo, dias 12 e 13 de setembro, apenas 40 vagas. Garanta sua vaga.

O que aconteceu

O documento parte de um diagnóstico direto: o sistema atual de publicação falha com a ciência e com a sociedade. Somas enormes são gastas em APCs, as desigualdades sobre quem pode publicar continuam arraigadas, e restrições de acesso combinadas com atraso na publicação limitam quem se beneficia de evidências novas. Os autores citam o levantamento A Review of Open Access Policy Options for Development Research Funders como base para o tamanho do problema.

A proposta do INASP não é abandonar os periódicos. É reconhecer o preprint como parte legítima da solução, algo que “a maioria dos formuladores de políticas e financiadores de pesquisa” ainda não fez, segundo o texto. As seis medidas seriam, nas palavras dos autores, complementares: agir em conjunto, e não isoladas, para mudar a cultura de publicação.

Por que isso importa pra você

O artigo lista quatro razões que sustentam essas medidas, e cada uma tem consequência prática pra quem está produzindo pesquisa agora.

  1. Acesso imediato. Preprints furam a fila de espera do periódico. Durante a pandemia de COVID-19, essa velocidade teve peso real, segundo o artigo Lessons from the influx of preprints during the early COVID-19 pandemic, citado como evidência do valor da divulgação rápida. O surto de ebola em curso na República Democrática do Congo e em Uganda é apontado como outro caso em que o compartilhamento rápido de evidência conta.
  2. Participação equitativa. Preprints permitem compartilhar o trabalho sem custo. Para quem está no início da carreira, ou trabalha em instituições do Sul Global, isso significa estabelecer prioridade sobre um achado sem depender do calendário (e do bolso) de um periódico.
  3. Custo-benefício. Se preprints forem reconhecidos como cumprimento dos princípios de Acesso Aberto, o gasto com APC cai, e esse dinheiro pode voltar para a pesquisa e para infraestrutura de publicação mantida pela própria comunidade científica.
  4. Transparência e integridade. O escrutínio muda de lugar: em vez de acontecer só antes da publicação, num processo fechado, passa a acontecer depois, aberto a qualquer pesquisador que quiser examinar o trabalho.

Se você está publicando agora

  • Verifique se a sua área já tem servidor de preprint estabelecido (SciELO Preprints, para o caso brasileiro, é um deles).
  • Pergunte à sua financiadora se ela reconhece preprint como produto de pesquisa válido para relatório ou prestação de contas.

Se você orienta ou avalia currículo

  • Considere se o critério de avaliação que você usa trata preprint como produção zero, e se isso faz sentido para a área.
Editor Acadêmico: sua formatação ABNT já vem pronta. Crie sua conta grátis.

O que a proposta pede das instituições

As seis medidas do documento cobrem terreno diferente cada uma: políticas nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação que tratem preprint como parte da Ciência Aberta; políticas específicas de financiadores sobre licenciamento e prazos; reforma no sistema de avaliação de pesquisa para que o preprint conte no currículo; capacitação da comunidade científica; investimento sustentado em infraestrutura de preprint gerida pela comunidade; e diplomacia científica global para dar visibilidade ao tema.

O ponto que amarra tudo isso é a reforma da avaliação. Sem ela, as outras cinco medidas perdem força: não importa quão rápido e barato seja publicar um preprint se ele não conta para financiamento nem para promoção de carreira. O artigo cita o texto When the Scoreboard Becomes the Game para sustentar que tratar o periódico de prestígio como sinônimo automático de qualidade é uma suposição que já está sendo questionada dentro da própria comunidade acadêmica.

Por que esse ponto me deixa atenta

O que mais me chama atenção nesse documento é o argumento do custo-benefício: dinheiro gasto em APC podendo voltar para pesquisa e infraestrutura da comunidade, em vez de sustentar o modelo pagar-para-publicar. Isso muda o cálculo de quem decide onde submeter, e de quem decide onde investir orçamento de fomento.

Por outro lado, sei que a mudança de cultura é lenta. Reconhecer preprint como produto válido de avaliação depende de uma reforma no sistema de avaliação de pesquisa, e isso não acontece da noite para o dia. Não significa que você deve esperar sentada: significa entender que, enquanto a régua institucional não muda, publicar em preprint é estratégia de visibilidade e prioridade, não substituto do que ainda conta oficialmente para o seu currículo. Vale a pena mapear os dois caminhos ao mesmo tempo.

Próximos passos

  1. Descubra se existe servidor de preprint reconhecido na sua área e leia a política de licenciamento antes de submeter.
  2. Pergunte diretamente à sua agência de financiamento se ela aceita preprint como evidência de produção em relatório de projeto.
  3. Leia o documento de políticas do INASP na íntegra antes de citar essas seis medidas em qualquer texto ou apresentação.
  4. Se você lida com integridade em pesquisa no seu dia a dia, veja como esse debate se conecta com outras fraturas do sistema de publicação em Fabricação de Dados: O Segredo Sujo da Ciência.

Fonte: Tornando a comunicação científica mais equitativa e eficaz: seis medidas para apoiar o compartilhamento de preprints, SciELO em Perspectiva

Perguntas frequentes

O que é um preprint em pesquisa científica?
É um artigo de pesquisa disponibilizado num servidor público antes de passar pela avaliação por pares. Isso permite acesso à evidência mais rápido, sem esperar o processo de revisão e publicação em periódico, e sem custo de taxa de submissão.
Por que os preprints ainda não são totalmente aceitos pela ciência?
Porque o sistema de avaliação de pesquisa (o que conta para currículo, financiamento e promoção) ainda trata a publicação em periódico de prestígio como sinônimo de qualidade. O documento do INASP argumenta que essa suposição está equivocada e propõe reformar esse sistema de avaliação.
Quem se beneficia mais do compartilhamento de preprints?
Pesquisadores em início de carreira e acadêmicos do Sul Global, segundo o documento. Eles ganham uma forma de estabelecer prioridade do trabalho e conseguir reconhecimento sem depender dos prazos, custos e barreiras de acesso dos periódicos tradicionais.

Leia também

Receba estratégias de escrita acadêmica direto no seu feed

Siga a Dra. Nathalia no YouTube e Instagram para conteúdo gratuito sobre o Método V.O.E.