Artigo com referências falsas: quando a IA inventa a fonte
Um estudante de ensino médio publicou artigo sobre ética em IA com referências inexistentes. O caso expõe um problema que já afeta 1 em cada 277 artigos.
Em maio, o Journal of Medical Ethics retratou um artigo sobre viés em algoritmos na indústria farmacêutica. O motivo não foi um erro de análise. Foi mais simples e mais grave: várias das referências citadas no texto não existem. O autor, Irfan Biswas, era um estudante de ensino médio em Massachusetts, e a investigação da revista concluiu que ele usou IA generativa para “identificar e entender as fontes referenciadas”, sem verificar nenhuma delas antes de submeter o artigo.
Uma referência fabricada é uma citação com aparência normal (nome de autor, título, ano, revista) que não corresponde a nenhum trabalho real. A IA generativa não busca essas fontes num banco de dados: ela prevê qual citação seria plausível ali, e o resultado soa acadêmico o suficiente para passar batido, se ninguém confere.
O que aconteceu
O artigo, publicado em setembro do ano passado, argumentava que algoritmos com viés podem aumentar desigualdades no acesso à saúde. Segundo a nota de retratação de 28 de maio, a investigação da revista encontrou “preocupações sobre a qualidade do trabalho e a exatidão das referências, incluindo a suspeita de que várias referências não existiam”. A nota também cita “evidência de manipulação do processo de revisão por pares”.
Biswas confirmou à revista que era estudante de ensino médio e concordou com a retratação. Ele não respondeu aos pedidos de esclarecimento do Retraction Watch sobre como as referências inexistentes chegaram ao texto final.
O episódio não é isolado. Em outro artigo publicado por Biswas, sobre CRISPR, ele listava vínculo com uma universidade que, segundo a própria instituição, não tem registro dele como aluno. Esse segundo artigo agora está sob investigação pela revista que o publicou.
Por que isso importa pra você
O caso de Biswas é extremo, mas o mecanismo por trás dele não é raro. Uma referência inventada só aparece quando ninguém abriu a fonte para confirmar que ela existe. Isso pode acontecer com qualquer pessoa que usa IA generativa numa fase de levantamento bibliográfico e pula a etapa de checagem.
- Nunca cite uma fonte que a IA sugeriu sem antes abrir o texto original. Confirme que ele existe, que tem o ano e a autoria informados, e que diz o que você está atribuindo a ele.
- Trate a lista de referências como parte do argumento, não como formalidade final. Uma citação errada compromete a credibilidade do texto inteiro, não só daquele trecho.
- Se o orientador ou a banca perguntar “você leu isso mesmo?”, a resposta precisa ser sim. É o teste mais simples que existe, e o mais eficaz.
O problema já tem tamanho medido: um levantamento indica que cerca de 1 em cada 277 artigos indexados no PubMed contém referências fabricadas, um padrão que cresceu com a popularização de ferramentas como o ChatGPT.

O que isso muda na sua relação com a IA generativa
Usar IA para escrever ciência não é o problema. O problema é onde, na cadeia de produção do texto, a verificação humana desaparece. No caso de Biswas, a IA generativa foi usada para identificar e tentar entender as fontes referenciadas, mas não para verificar se elas existiam de fato. Ela não é uma base de dados bibliográfica, e tratá-la como se fosse é o erro estrutural por trás desse tipo de retratação.
Na minha experiência orientando quem está escrevendo os primeiros artigos, é fácil deixar a conferência das referências para o final e tratá-la como formalidade, quando ela devia ser parte do argumento. Vale menos tempo economizado na busca e mais tempo garantido na conferência: são etapas diferentes, e a segunda não pode ser terceirizada pra ferramenta nenhuma.
Próximos passos
- Se você usa IA generativa para levantamento bibliográfico, separe um momento específico só para confirmar cada referência antes de inserir no texto.
- Guarde o link ou o DOI de cada fonte no momento em que você a confirma, não depois.
- Releia a lista final de referências perguntando, uma por uma: “eu já li isso, ou só confiei que existia?”
Se você quer entender melhor como a revisão por pares está lidando com IA nos dois lados do processo, vale ler IA e revisão por pares: o que está mudando para você.
Fonte: Ethics journal retracts paper by high school student for AI, peer review manipulation, Retraction Watch
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Perguntas frequentes
Por que uma revista científica retratou um artigo sobre IA na saúde?
O que significa uma revista encontrar 'referências que não existem' em um artigo?
Como evitar publicar referências inventadas por IA?
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