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SBPC debate mídia e desinformação científica na 78ª Reunião

Encontro na UFF reúne jornalistas e pesquisadores para discutir como a mídia cobre ciência e clima, e por que isso afeta quem produz conhecimento hoje.

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Você já parou pra pensar por que uma descoberta científica relevante desaparece do noticiário em três dias, enquanto uma tragédia ambiental vira pauta por semanas? Entre 26 de julho e 1º de agosto, a Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, recebe a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e um dos eixos centrais do encontro é justamente essa pergunta. A SBPC é a entidade que reúne pesquisadores brasileiros de diferentes áreas para defender ciência, educação e política científica no país, e este ano ela dedica quatro debates ao vínculo entre mídia, informação e o que o evento chama de soberania comunicacional. Se você depende de divulgação científica para que sua pesquisa saia do papel, entender esse mecanismo importa tanto quanto entender a metodologia do seu próprio trabalho.

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O que aconteceu

A programação da 78ª Reunião Anual da SBPC, com o tema central “Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão”, inclui a conferência “A mídia brasileira diante da emergência climática: omissão ou protagonismo?”, no dia 29 de julho. Quem ministra é André Trigueiro, jornalista ambiental da GloboNews e professor da PUC-Rio, com coordenação de Renato Sérgio Balão Cordeiro, pesquisador emérito da Fiocruz e membro do Conselho da SBPC.

Trigueiro formou-se em 1988, e conta que já na Rio-92 denunciava a falta de espaço para jornalismo ambiental contínuo. Segundo ele, o padrão se repete até hoje: “muitas vezes, os temas só ganham visibilidade quando associados a tragédias”, o que não corresponde ao papel social do jornalismo. Ele também aponta um problema estrutural fora das grandes redações: em várias regiões do Brasil, lideranças políticas são proprietárias de rádios e jornais, ou têm participação em mineração, agronegócio e pecuária, o que gera conflito de interesse direto sobre o que é publicado.

A programação soma mais três atividades sobre o tema: Muniz Sodré (UFRJ) fala em “Midiatização e soberania” no dia 27, e no dia 31 uma mesa-redonda sobre educação midiática reúne docentes de quatro universidades federais diferentes.

Por que isso importa pra você

Se você pesquisa qualquer tema com potencial de repercussão pública (saúde, clima, tecnologia, educação), a lógica que Trigueiro descreve é a mesma lógica que decide se a sua pesquisa chega além do periódico onde foi publicada.

  1. Se você depende de divulgação para engajamento social ou extensão: a notícia confirma que a cobertura de ciência no Brasil ainda não é contínua por padrão. Se sua área depende de repercussão constante, vale procurar veículos ou colunistas que já cobrem o tema de forma recorrente, não só quando há gancho de crise.
  2. Se você estuda desinformação ou comunicação de risco: Trigueiro trata desinformação climática e desinformação sobre vacinas como o mesmo fenômeno, com a mesma receita de combate. Se seu objeto de estudo é adjacente a isso, a fala dele no evento é referência primária citável.
  3. Se você está numa federal fora do eixo Rio-São Paulo: o jornalista chama atenção para a diversidade de estrutura midiática entre pequenas cidades e metrópoles. Trigueiro alerta que, em algumas regiões, lideranças políticas têm participação em rádios, jornais ou em setores como mineração e agronegócio. Se sua pesquisa tocar nesses temas, vale considerar esse possível conflito de interesse antes de buscar imprensa local.
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O que muda na forma de comunicar ciência

Um ponto que Trigueiro faz, e que vale reter mesmo fora do debate sobre clima, é que reportar um fato relevante deixou de ser suficiente. Na formação dele, em 1988, bastava apurar bem e narrar com fidelidade. Hoje, segundo ele, o jornalista também precisa entender como a ciência produz conhecimento (evidências, dados, processos de validação) pra conseguir explicar por que uma informação concorrente não merece o mesmo peso.

Isso tem uma implicação direta pra quem pesquisa: se o jornalista precisa entender seu método pra defender seus resultados diante de desinformação, a responsabilidade de tornar esse método legível não é só dele. É também de quem pesquisa. Um resumo técnico bem escrito, com a incerteza explicitada em vez de escondida, facilita esse trabalho de tradução em vez de sobrecarregá-lo.

Trigueiro cita os relatórios do IPCC como exemplo: “não existe previsão absoluta, existem cenários probabilísticos”, e os relatórios mais recentes têm precisão muito superior aos das décadas passadas. Comunicar isso bem, sem simplificar até distorcer, é trabalho de tradução, não de resumo.

O ponto que mais me chama atenção nesse debate

Na minha experiência acompanhando produção acadêmica, o problema que Trigueiro descreve não é só de imprensa: é de ecossistema. Pesquisador aprende a escrever para banca e para periódico. Escrever para quem decide se aquilo é notícia é outra habilidade, raramente ensinada junto. E aí a pesquisa fica esperando um jornalista traduzir um trabalho que, muitas vezes, nem ele mesmo consegue resumir em duas frases.

Não é sobre virar divulgador científico da noite pro dia. É sobre reconhecer que parte do valor de uma pesquisa se realiza quando ela circula, e que essa circulação depende de uma ponte que raramente é ensinada na pós-graduação. Faz sentido pensar nisso antes de você precisar de uma entrevista às pressas, não depois.

Próximos passos

Se o tema te interessa, tanto pelo conteúdo do debate quanto pela oportunidade de estar num evento gratuito com essa curadoria, aqui vai o que fazer:

  1. Acesse a programação completa e confira os horários das quatro atividades sobre mídia no site oficial: https://ra.sbpcnet.org.br/78RA/.
  2. Inscreva-se antecipadamente se pretende participar de minicursos (cobrados) ou submeter trabalho pra Sessão de Pôsteres.
  3. Se você pesquisa clima, saúde pública ou qualquer tema sujeito a desinformação, anote a fala de Trigueiro no dia 29 como referência: ele articula publicamente o vínculo entre rigor científico e combate à desinformação de um jeito que costuma faltar em bibliografia acadêmica sobre o tema.
  4. Avalie se vale a viagem até Niterói: a entrada é livre em todas as atividades, o que reduz o custo de simplesmente aparecer e ouvir.

Se esse tipo de tensão entre produção de conhecimento e quem decide o que vira notícia te interessa, vale complementar com a discussão sobre quem concentra o poder de decidir o que é conhecimento válido hoje, que puxa esse mesmo fio por outro ângulo.

Fonte: Mídia, ciência e desinformação serão temas da 78ª Reunião Anual da SBPC, Jornal da Ciência

Perguntas frequentes

Quando e onde acontece a 78ª Reunião Anual da SBPC?
Entre 26 de julho e 1º de agosto, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ). A entrada é gratuita para todas as atividades, com cobrança apenas para minicursos, material do evento e submissão de trabalhos na Sessão de Pôsteres.
Por que a cobertura de mudanças climáticas na mídia brasileira é um problema para pesquisadores?
Porque, segundo o jornalista André Trigueiro, temas ambientais historicamente só ganham espaço quando associados a tragédias, e não como cobertura contínua. Isso limita o alcance de achados científicos que dependem de repercussão pública constante, não pontual.
Como o jornalismo científico deve lidar com desinformação sobre ciência e clima?
Trigueiro defende que não basta reportar fatos: o jornalista precisa entender como a ciência valida conhecimento (evidências, dados, processos de revisão) para explicar por que informações concorrentes não merecem credibilidade, tratando desinformação climática com o mesmo rigor da desinformação sobre vacinas.

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