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Super El Niño: por que o Brasil sofre mais que a média

Cientista social explica por que o Super El Niño deste inverno atinge o Brasil com mais força que o resto do planeta, e quem paga o preço mais alto.

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Em 21 de junho, os hemisférios trocaram de estação, e o inverno que começa no Sul promete ser diferente dos anteriores. Um Super El Niño está se formando nas águas do Pacífico, e a projeção mais dura do artigo que originou este texto é esta: o Brasil deve esquentar mais do que a média do planeta. Um Super El Niño é o nome dado ao El Niño quando o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial passa de 2°C acima da média histórica. Se você estuda impacto ambiental, desigualdade social ou política pública, esse dado muda o tamanho do problema que você está descrevendo.

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O que aconteceu

O artigo, publicado na The Conversation por um professor de pós-graduação em Sociologia, parte de um número que chama atenção por si só: enquanto o IPCC projeta um aumento médio global de 2,8°C, a inércia térmica e a menor capacidade térmica continental devem levar o Brasil a um aquecimento real entre 3,5°C e 4,0°C. A rampa de aquecimento atual já indica alterações térmicas entre 2,5°C e 4,0°C, valor suficiente para caracterizar o fenômeno como Super El Niño.

O autor lembra que o mesmo fenômeno climático esteve por trás das enchentes históricas no Rio Grande do Sul em 2024, que deslocaram milhares de pessoas e geraram prejuízos bilionários, e também das secas severas na Amazônia em 2023 e 2024, que travaram a navegação fluvial e o acesso a serviços básicos de comunidades ribeirinhas. São dois desastres opostos (chuva em excesso de um lado, seca extrema do outro), e o artigo os trata como duas faces do mesmo fenômeno.

Por que isso importa pra você

O argumento central do artigo é que esses efeitos não se explicam só pela climatologia. Eles dependem de decisões acumuladas: ocupação de áreas ecologicamente sensíveis, infraestrutura urbana insuficiente, desmatamento de biomas que regulam o ciclo hidrológico. Analisar o Super El Niño, segundo o autor, significa perguntar por que certos grupos e regiões sofrem impactos muito maiores do que outros.

Para embasar isso, o artigo recorre a um conjunto de referências da sociologia ambiental:

  1. Ulrich Beck argumenta que os riscos ambientais de hoje são produzidos pela própria modernização, e não apenas pela natureza.
  2. Enrique Leff, Vandana Shiva e Rob Nixon (autores da ecologia política citados no artigo) mostram que os impactos ambientais recaem de forma desproporcional sobre populações historicamente marginalizadas.
  3. Robert Bullard, com o conceito de justiça ambiental, evidencia que comunidades pobres e populações negras tendem a estar mais expostas a enchentes, secas e contaminações, com menos acesso aos recursos de proteção e adaptação.

Se sua pesquisa cruza clima, território e desigualdade, esse é o tipo de referencial que ajuda a sustentar por que um evento climático se transforma em crise social distribuída de forma desigual.

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Próximos passos

Se você trabalha com sociologia ambiental, geografia ou políticas públicas, vale reler o artigo original e mapear se as referências citadas (Beck, Bullard, Leff, Shiva, Nixon) já aparecem no seu referencial teórico ou se cabem como leitura complementar. Se sua pesquisa é sobre desastres climáticos no Brasil, o Super El Niño em curso pode ser um recorte de caso relevante para os próximos meses.

Quem escreve sobre desigualdade e meio ambiente sabe que argumento bem construído não depende só de boa teoria: depende de método para lidar com dados dispersos e prazos apertados. Se esse é o seu momento, vale ler Por que o Brasil Investe Tão Pouco em Ciência?, que discute outra faceta do mesmo problema estrutural.

Fonte: Sociologia pela ótica das desigualdades: Super El Niño que se aproxima neste inverno é um espelho do Brasil, The Conversation

Perguntas frequentes

O que é um Super El Niño e por que ele é diferente do El Niño comum?
O El Niño é o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial, que no Brasil costuma trazer mais chuva ao Sul e mais seca ao Norte e a parte do Nordeste. Quando esse aquecimento passa de 2°C acima da média histórica, o fenômeno passa a ser chamado de Super El Niño. A rampa atual aponta para algo entre 2,5°C e 4,0°C.
Por que o Brasil deve esquentar mais do que a média mundial neste episódio?
O IPCC projeta um aumento médio global de 2,8°C, mas a inércia térmica e a menor capacidade térmica continental fazem o aquecimento real no Brasil ficar entre 3,5°C e 4,0°C. Ou seja, o país tende a sentir o fenômeno de forma mais intensa do que o planeta como um todo.
Por que um sociólogo está analisando um fenômeno climático?
Porque os efeitos do El Niño (enchentes, secas, deslocamento de populações) não nascem só da atmosfera. Eles dependem de onde as pessoas moram, de quanta infraestrutura urbana existe e de quem tem recursos para se proteger. O artigo usa o conceito de justiça ambiental para mostrar que populações pobres e negras concentram o pior desses impactos.

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