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Periódico predatório: o alvo é o sênior, não o iniciante

Levantamento do ICMC-USP mostra que pesquisadores seniores, não os iniciantes, são os mais vulneráveis a periódicos predatórios. Entenda o motivo.

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Você provavelmente já recebeu um e-mail assim: “Seu artigo foi selecionado”, “Publicação em 48 horas”, “Submeta agora”. Parece reconhecimento. Na maioria das vezes, é a porta de entrada para um mercado que só cresce no Brasil: o dos periódicos predatórios.

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Um levantamento do ICMC-USP em São Carlos, publicado na revista científica Scientometrics, mapeou seis anos desse crescimento e chegou a um resultado que contraria a intuição de quem estuda o tema. Um periódico predatório é uma revista que cobra taxa de publicação e promete aceite rápido, mas não faz a revisão por pares com rigor, então artigos com falhas metodológicas graves acabam publicados como se fossem ciência validada. Se você está no meio da carreira acadêmica, e não no começo dela, esse levantamento fala diretamente com você.

O que aconteceu

A pesquisa nasceu da experiência pessoal do professor Fábio Manoel França Lobato, hoje no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP. Ainda no mestrado, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), ele publicou, por desconhecimento, em uma revista predatória. Anos depois, já como coordenador de projetos de pesquisa na mesma universidade, percebeu que colegas caíam na mesma armadilha, e decidiu investigar a escala do problema.

A equipe automatizou o disparo de questionários para secretarias de pós-graduação de todo o país e cruzou as respostas com os IDs do Lattes dos participantes. Mais de 3 mil pesquisadores brasileiros responderam, entre 2021 e 2022. O achado central: não foram os jovens pesquisadores, em início de carreira, os mais suscetíveis ou preocupados com os custos dessas publicações, mas sim os mais seniores.

Uma das hipóteses da equipe é que os critérios de progressão de carreira no Brasil costumam priorizar o volume quantitativo de artigos, em vez da avaliação qualitativa do impacto real da pesquisa. O estudo também aponta uma assimetria estrutural: programas de pós-graduação menores, fora dos grandes centros de excelência, sofrem com a sobrecarga de trabalho dos docentes, o que sufoca o debate sobre integridade científica dentro da instituição.

Por que isso importa pra você

O resultado contraintuitivo desmonta uma suposição comum: a de que cair num periódico predatório é erro de quem está começando e ainda não aprendeu a diferenciar revista séria de armadilha. Os dados do ICMC-USP mostram outra coisa: pesquisador experiente, pressionado por meta de publicação pra subir de nível na carreira, também cai.

Vale identificar onde você está nessa equação, dependendo do momento:

  1. Se você está no início da pós-graduação: o risco não é menor por você ser jovem, é diferente. O estudo não detalha o motivo, mas os dados mostram que pesquisadores em início de carreira responderam com menos preocupação sobre os custos dessas publicações do que os seniores.
  2. Se você está em meio ou fim de carreira, buscando progressão: este é o grupo que o estudo identifica como mais vulnerável. Vale revisar, com olhar crítico, se algum critério de avaliação que você está tentando cumprir está te empurrando pra quantidade em vez de qualidade.
  3. Se você orienta ou coordena um programa de pós: o professor Lobato é direto sobre isso: “Nós não podemos cobrar se não ensinamos.” Se o seu programa não tem uma conversa estruturada sobre isso, é uma lacuna concreta, não um detalhe.

O artigo original lista três sinais recorrentes de periódico predatório, e eles valem guardar:

SinalO que observar
Indexação suspeitaO site alega estar em bases de dados renomadas, mas a indexação é falsa, inexistente, ou existe e ainda assim não garante qualidade (já houve caso indexado até no Directory of Open Access Journals)
Taxa e prazoPromessa de publicação rápida associada a cobrança de taxa de processamento, no Brasil geralmente entre R$ 400 e R$ 500, abaixo do praticado por editoras internacionais
Convites insistentesDepois de um artigo publicado, e-mails frequentes convidando a submeter de novo, muitas vezes fora da sua área de pesquisa
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O que isso muda com a IA generativa no meio do caminho

Os dados dessa pesquisa foram coletados entre 2021 e 2022, antes da explosão de ferramentas como o ChatGPT. O próprio Lobato reconhece que isso muda a equação: “Ficou muito mais fácil escrever um artigo e simular uma pesquisa. Com a inteligência artificial generativa, pessoas conseguem fazer ideação e construir textos bem estruturados, mas sem necessariamente ter o domínio do rigor científico, útil para a sociedade.”

É aqui que o Método V.O.E. (Velocidade, Organização, Execução Inteligente) faz diferença prática. Usar IA generativa para ganhar velocidade na escrita não é o problema. O problema é confundir velocidade de produção de texto com rigor de método, e e é justamente aí que a fala de Lobato preocupa: menos rigor na produção do texto pode significar mais material circulando sem o escrutínio que a ciência exige..

O ponto que mais me preocupa nesse levantamento

O que mais me chama atenção nesse estudo não é a existência das revistas predatórias, isso já sabemos há anos. É a confirmação de que o problema está estrutural na forma como medimos produtividade acadêmica. Se a régua de avaliação privilegia quantidade de artigos e não qualidade do impacto, ela empurra justamente quem mais precisa daquele número no currículo, seja pra progressão, seja pra pontuar em concurso, para o caminho mais rápido e mais barato.

Não significa que todo pesquisador sênior está fazendo isso de má-fé. A própria pesquisa reconhece dois grupos: quem cai por desconhecimento e quem usa deliberadamente pra inflar o Currículo Lattes. Mas os dois grupos nascem do mesmo desenho de incentivo. Enquanto a régua não mudar, a pressão continua, e a solução não é individual, é de política científica: por isso o professor defende uma campanha nacional de sensibilização envolvendo as agências de fomento.

Próximos passos

  1. Antes de submeter um artigo a uma revista que você não conhece, confira a indexação diretamente na base de dados citada, não confie no que o site da revista afirma.
  2. Se você está no meio ou fim de carreira e sente pressão por volume de publicação, converse com seu programa sobre os critérios reais de avaliação: verifique com seu programa quais são, na prática, os critérios de avaliação usados..
  3. Se você orienta, inclua uma conversa explícita sobre periódicos predatórios na formação de novos pesquisadores. O estudo é claro: não cobrar sem ensinar.
  4. Leia o artigo completo, “Predatory publishing in the academic landscape: researchers’ awareness and vulnerabilities”, se quiser os dados na íntegra.

Se você quer entender melhor como esse mercado se estrutura e lucra, dá uma olhada em Predatory Journals: o Mercado da Publicação Falsa.

Fonte: Pressão por produtividade e falta de treinamento favorecem crescimento do mercado de periódicos predatórios, Jornal da USP

Perguntas frequentes

O que é um periódico predatório?
É uma revista científica que cobra taxa de publicação e promete aceite rápido, mas não faz a revisão por pares de forma rigorosa. Ela reproduz no site uma política editorial que parece robusta e afirma estar indexada em bases de dados, só que muitas dessas indexações são falsas ou inexistentes, e mesmo quando existem não garantem qualidade.
Por que pesquisadores seniores são mais vulneráveis a periódicos predatórios do que os iniciantes?
O estudo do ICMC-USP levanta a hipótese de que os critérios de progressão de carreira no Brasil priorizam o volume de artigos publicados em vez da avaliação qualitativa do impacto da pesquisa. Isso empurra pesquisadores mais experientes, que precisam desse volume pra subir de nível, para revistas que aceitam qualquer coisa rápido.
Como identificar um periódico predatório antes de submeter um artigo?
Três sinais recorrentes, segundo o levantamento: promessa de publicação muito rápida associada a cobrança de taxa (no Brasil, entre R$ 400 e R$ 500), indexação em bases que não existem ou não são verificáveis, e envio frequente de convites para submissão, muitas vezes fora da sua área de pesquisa.

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