Posicionamento

A tensão de Hubble: por que o universo desafia o modelo

Adam Riess, Nobel de Física, explica por que duas formas de medir a expansão do universo dão respostas diferentes, e o que isso pode significar para a

ciencia posicionamento metodo-cientifico fisica exatas

Duas equipes de físicos, usando métodos independentes, mediram a mesma coisa: a velocidade com que o universo está se expandindo hoje. As margens de erro são pequenas nos dois casos. E os números não coincidem. Essa é a tensão de Hubble, e ela está incomodando justamente o físico que ajudou a destravar essa área de pesquisa.

Imersão Vira Artigo: o artigo científico que já existe dentro do seu trabalho sai em 1 dia. Ao vivo, dias 12 e 13 de setembro, apenas 40 vagas. Garanta sua vaga.

Em entrevista ao podcast The Joy of Why, da Quanta Magazine, Adam Riess, professor da Johns Hopkins University e ganhador do Nobel de Física de 2011, contou como chegou a essa descoberta e por que ela pode sinalizar um problema maior do que parece. A Constante de Hubble é o número que descreve a taxa de expansão atual do universo, batizado em homenagem ao astrônomo Edwin Hubble, o primeiro a medi-la. Se você trabalha com dados, modelos ou qualquer área em que duas medições confiáveis precisam bater, essa história tem lições que vão bem além da astrofísica.

O que aconteceu

Riess integrou, na década de 1990, o High-Z Supernova Team, um dos dois grupos que buscavam medir se a expansão do universo estava desacelerando, como previa a física da época. A lógica parecia sólida: a gravidade da matéria no universo deveria funcionar como um freio, do mesmo jeito que a gravidade da Terra desacelera uma bola lançada para o alto.

O resultado, obtido por volta de 1997 e 1998, foi o oposto: a expansão estava acelerando. Antes de aceitar o dado, Riess passou por uma rodada de verificações cruzadas em busca de erro próprio. “Eu tinha certeza de que tinha feito algo errado”, disse ele, descrevendo esse processo que a equipe fez antes de publicar. Nenhum erro apareceu, e o achado se consolidou: existe algo empurrando o universo para fora, o que os físicos batizaram de energia escura. A descoberta virou Nobel em 2011.

Mais de uma década depois, ao tentar refinar a medição da Constante de Hubble usando o telescópio Hubble e depois o James Webb, Riess topou com um número que destoava do previsto pela radiação cósmica de fundo (o “retrato de bebê” do universo, captado por satélites como o Planck). As duas medições, cada uma com incerteza pequena, davam valores diferentes. É essa diferença, hoje acima de 5 sigma (o patamar que a física usa para dizer “algo está acontecendo aqui”), que ficou conhecida como tensão de Hubble.

Por que isso importa pra você

Você não precisa estudar cosmologia para reconhecer o problema de Riess: duas fontes de dados, cada uma bem calibrada, discordando persistentemente. É um cenário comum em qualquer pesquisa que dependa de instrumentação, modelagem ou triangulação de métodos.

O que Riess descreve fazer diante da discrepância é replicável em qualquer área:

  1. Desconfiar primeiro de si mesmo. Antes de anunciar um resultado contraintuitivo, ele revisou a própria análise, buscando erro na coleta ou no cálculo.
  2. Buscar verificação independente. Só depois de esgotar a autocrítica, ele levou o dado para o restante da equipe, e depois para outros grupos com telescópios e métodos diferentes.
  3. Repetir com instrumentos distintos. A mesma medição foi refeita com o Hubble e depois com o James Webb, chegando ao mesmo resultado, o que descarta erro do equipamento específico.
  4. Aceitar que a discrepância pode ser real, não ruído. Depois de anos de checagem, ninguém encontrou erro de medição que explique a diferença, o que reforça a hipótese de que ela seja sinal de algo que o modelo atual não explica.

Se a sua pesquisa também depende de comparar dados vindos de fontes ou métodos diferentes, vale perguntar: você já esgotou a checagem interna antes de assumir que o dado está certo? E, quando dois resultados confiáveis discordam, você tem tratado isso como ruído a ser descartado, ou como pista a ser investigada?

Editor Acadêmico: ABNT, APA e Vancouver sem briga. Crie sua conta grátis.

O modelo é bom, e ainda assim pode estar incompleto

Um dos pontos mais interessantes da entrevista é como Riess trata o modelo padrão da cosmologia, o Lambda-CDM. Ele insiste, várias vezes, que esse modelo é excelente: explica a abundância de elementos químicos leves, a radiação cósmica de fundo, a formação de galáxias. Não é um modelo ruim que a tensão de Hubble está derrubando.

Existem dois jeitos ruins de reagir a dados divergentes: descartar o modelo inteiro na primeira anomalia, ou ignorar a anomalia porque o modelo “sempre funcionou”. Riess evita as duas armadilhas. Ele lembra o caso histórico de Urano e Netuno: uma órbita “errada” levou à descoberta de um planeta novo, sem que a teoria de Newton precisasse mudar. E lembra também o caso de Mercúrio: uma órbita igualmente “errada” levou, décadas depois, a uma revisão da própria teoria da gravidade por Einstein. A mesma classe de discrepância teve dois destinos completamente diferentes.

Isso não significa que toda anomalia vale a pena perseguir, nem que toda anomalia é irrelevante. Significa que você só descobre qual é o caso fazendo o trabalho: repetindo a medição, testando hipóteses, publicando para que outros possam contestar. “Ciência não é história”, diz Riess. “Você tem que fazer o trabalho, tem que fazer os experimentos.” Não é sobre estar seguro de qual dos dois cenários você está vivendo, é sobre continuar checando até os dados decidirem por você.

Próximos passos

Riess menciona que três novos observatórios (o telescópio Vera Rubin, a missão Euclid e o telescópio Nancy Grace Roman, este último com lançamento previsto para setembro deste ano) vão coletar volumes de dados muito maiores do que os disponíveis hoje, com potencial para esclarecer se a tensão de Hubble é sinal de física nova ou resultado de algum erro sistemático ainda não identificado.

Enquanto esse veredito não chega, três atitudes da entrevista valem para qualquer pesquisadora lidando com dados que não fecham:

  1. Documente a discrepância com o mesmo rigor com que documentaria uma confirmação. Ela pode ser o dado mais importante do seu trabalho.
  2. Busque replicação com métodos e instrumentos diferentes antes de assumir que o resultado é real, ou que é erro.
  3. Não trate “o modelo sempre funcionou até aqui” como argumento contra investigar a anomalia.

Se esse tipo de tensão entre dado e modelo teórico te interessa em outros contextos da produção científica, vale conferir como a China avançou nos rankings acadêmicos enquanto o Brasil perdeu espaço, outro caso em que números bem medidos forçam a revisão de um modelo que parecia estável.

Fonte: How Fast Is the Universe Really Expanding?, Quanta Magazine

Perguntas frequentes

O que é a tensão de Hubble?
É a discrepância entre dois métodos de medir a taxa de expansão atual do universo (a Constante de Hubble): um baseado em supernovas próximas, outro baseado na radiação cósmica de fundo. As duas medições, com margens de erro pequenas, não coincidem, e a diferença já passa de 5 sigma, o limiar que os físicos consideram estatisticamente significativo.
Por que Adam Riess ganhou o Nobel de Física?
Riess dividiu o Nobel de 2011 por liderar a análise de dados que revelou, em 1998, que a expansão do universo está acelerando, não desacelerando como se esperava. A descoberta usou supernovas Tipo Ia como referência de distância e levou à proposição da energia escura como explicação.
O que é o modelo Lambda-CDM?
É o modelo cosmológico padrão, que descreve o universo como composto por cerca de 4% de matéria comum, 26% de matéria escura e 70% de energia escura. Ele explica com precisão fenômenos como a radiação cósmica de fundo e a formação de galáxias, mas as recentes discrepâncias na Constante de Hubble sugerem que pode haver lacunas nele.

Leia também

Receba estratégias de escrita acadêmica direto no seu feed

Siga a Dra. Nathalia no YouTube e Instagram para conteúdo gratuito sobre o Método V.O.E.