Editor de revista científica promove produto próprio
Investigação do Retraction Watch mostra cirurgião plástico usando sua própria revista para divulgar estudos sobre exosomas, produto ao qual está ligado.
O que aconteceu
Em outubro, o Retraction Watch publicou uma investigação sobre Rod Rohrich, cirurgião plástico e ex-presidente da Associação Mundial de Editores Médicos. Rohrich fundou, em 2013, a revista Plastic and Reconstructive Surgery-Global Open (PRS Global Open) e hoje ocupa o cargo de editor emérito. Um conflito de interesse é a situação em que alguém que avalia ou decide sobre uma pesquisa tem, ao mesmo tempo, ganho financeiro ou profissional ligado ao resultado dessa avaliação. Se você lida com peer review, orientação ou avaliação de pares, esse caso mostra onde a linha se rompe na prática.
A reportagem mostra Rohrich atuando como consultor da Rion, uma spin-off da Mayo Clinic que testa exosomas de plaquetas, inclusive numa linha de skincare já comercializada antes mesmo da comprovação clínica completa. Em 2024, Rohrich publicou na própria revista um artigo de revisão com Atta Behfar, fundador da Rion, elogiando a formulação da empresa. No ano seguinte, esse artigo recebeu o prêmio de “Melhor Artigo de Pesquisa” da PRS Global Open, dada pela mesma publicação que ele ajudou a criar.
Por que isso importa pra você
O caso não é só sobre um cirurgião e uma empresa de cosméticos. É sobre como a estrutura de uma revista científica pode ser usada para validar produto comercial sem a distância que a ciência exige. Isso toca direto em quem publica, revisa ou lê artigos como fonte de verdade.
- Se você está submetendo artigo para publicação, confira se o periódico tem política clara de conflito de interesse e se ela é aplicada aos próprios editores, não só aos autores.
- Se você revisa artigos como parecerista, pergunte-se se teria coragem de recusar um manuscrito do próprio editor-chefe da revista. Esse desequilíbrio de poder é real, e é raro ver alguém nomeá-lo em voz alta.
- Se você está citando estudos sobre produtos ou tecnologias emergentes, procure saber quem financiou a pesquisa e se o periódico que a publicou já premiou trabalhos do mesmo grupo.
Um relatório sobre o teste clínico do produto de Rohrich e Behfar, publicado um ano depois do artigo de revisão, foi descrito por um especialista consultado pelo Retraction Watch como contendo “erros graves de desenho” e “análises enganosas”. Outro estudo sobre exosomas, divulgado nas redes sociais da própria revista, já foi retratado.

O dado que a estatística do Inpe não mostra, e o Knoepfler mostra
Paul Knoepfler, biólogo celular da Universidade da Califórnia em Davis e autor do blog sobre células-tronco The Niche, chamou o campo dos exosomas de “área hiper-hipada”, cheia de pesquisa duvidosa. A frase dele resume o problema: 181 artigos retratados não são 181 erros isolados, são o sintoma de um mercado que corre na frente da evidência.
Knoepfler foi direto sobre o papel de Rohrich: “Eu fico preocupado quando vejo artigos sendo publicados por revistas onde um ou mais autores têm ou tiveram papéis de liderança na mesma revista. No mínimo, isso levanta questões sobre como essa conexão pode ter afetado decisões editoriais e revisão por pares.”
Em resposta ao Retraction Watch, Rohrich defendeu seu trabalho: “Eu dou boas-vindas à crítica científica legítima… e apoio fortemente um relato preciso e adequadamente medido do que essas publicações estabelecem e do que não estabelecem. Permaneço otimista quanto ao potencial da medicina regenerativa, mas otimismo não substitui evidência.”
Por que esse caso me incomoda mais do que parece à primeira vista
Quando li essa investigação, o que mais me chamou atenção não foi o conflito de interesse em si (isso, infelizmente, não é raro), mas a naturalidade com que ele se instalou. Rohrich não escondeu a consultoria para a Rion. Ele falou dela no próprio podcast, em 2022, chamando o produto de “incrível” antes mesmo de qualquer resultado clínico robusto.
Por um lado, é tentador achar que basta declarar o vínculo financeiro para resolver o problema. Por outro, a declaração não devolve a independência que falta quando o mesmo nome assina o estudo, edita a revista e recebe o prêmio pela própria obra. Não significa que todo editor com vínculo comercial é desonesto. Significa que a estrutura de revisão por pares, sozinha, não protege a ciência quando quem decide também tem o que ganhar.
Próximos passos
Se você está na pós-graduação e lida com revisão de literatura ou submissão de artigos, vale um checklist rápido antes de confiar numa fonte ou escolher onde publicar:
- Busque a declaração de conflito de interesse no próprio artigo, não só no rodapé da revista.
- Verifique se o editor-chefe ou editor emérito da revista aparece como autor ou coautor de artigos publicados nela.
- Desconfie de prêmios internos concedidos a artigos de pessoas ligadas à direção da publicação.
- Cheque o histórico do periódico no banco de dados do Retraction Watch antes de citar estudos de área emergente.
Casos como esse não são exclusividade da medicina estética. Se você já se perguntou como funciona a engrenagem por trás de um artigo retratado, vale ler Artigo nunca existiu, mas o caso não terminou de vez, que mostra outro ângulo do mesmo problema: o que acontece depois que a ciência errada já circulou.
Fonte: Journal founded by plastic surgeon touts studies of products he’s tied to - including one that has been retracted, Retraction Watch
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O que são exosomas e por que viraram alvo de controvérsia científica?
É errado um editor de revista publicar pesquisa sobre produto ligado a ele?
Como eu, pesquisadora, identifico esse tipo de conflito antes de confiar numa fonte?
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