Escala da USP mede confiança de pós-graduandos na pesquisa
Pesquisador de Ribeirão Preto criou instrumento validado com 444 estudantes para medir a confiança em tarefas específicas da pesquisa científica.
Você confia mais em formular uma pergunta de pesquisa ou em defender a tese na frente da banca? Pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP, acabam de validar um instrumento que mede exatamente essa diferença. A Escala de Autoeficácia para Pesquisa Científica é um questionário de 25 itens que avalia o quanto o pós-graduando confia na própria capacidade de executar tarefas específicas da investigação científica, da elaboração do projeto à defesa da dissertação ou tese. Se você está no mestrado ou no doutorado agora, essa escala coloca nome em algo que você provavelmente já sente na pele: a confiança não é igual em todas as etapas da pesquisa.
A ferramenta foi desenvolvida por Rafael Lima Dalle Mulle durante o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia da FFCLRP-USP, orientado pela professora Fabiana Maris Versuti, com supervisão da professora Diana Aguiar Vieira e colaboração de José Egídio Oliveira, ambos de Portugal. O estudo foi publicado na revista científica Paidéia.
O que a escala mede, exatamente
Autoeficácia não é confiança genérica, tipo “eu sou capaz”. É a percepção da pessoa sobre a própria capacidade de fazer uma tarefa específica. A escala pede ao estudante que dê uma nota de 1 a 7 (de confiança nenhuma a confiança completa) para atividades como formular pergunta de pesquisa, definir objetivos, elaborar hipóteses, fazer revisão de literatura, analisar dados, identificar limitações do estudo, escrever artigos, apresentar resultados em eventos e defender a dissertação ou tese.
Os 25 itens finais se organizam em cinco fatores: divulgação e defesa da pesquisa, elaboração do projeto, pensamento crítico e conciliação de atividades, análise e tratamento de dados, e revisão da literatura. Segundo Rafael, até a publicação do artigo os autores não encontraram outro instrumento validado no Brasil focado especificamente nessas tarefas dentro da pós-graduação stricto sensu. As escalas existentes medem confiança de forma mais ampla, sem se concentrar na rotina de quem está produzindo pesquisa.
Por que isso importa pra você
O ponto mais útil da escala não é o diagnóstico em si, é o que ele permite fazer depois. Se você sabe em qual etapa da pesquisa a sua confiança despenca, você para de tratar “estou travada” como um problema vago e passa a tratar como um problema de tarefa específica, que tem solução específica.
Se você está cursando o mestrado ou doutorado agora
- Pense nas cinco frentes da escala (projeto, revisão de literatura, análise de dados, pensamento crítico, divulgação e defesa) e identifique em qual você se sente mais insegura.
- Trate essa frente como prioridade de estudo, não como fraqueza pessoal. Trate essa frente como prioridade de estudo técnico, não como um veredito sobre o seu perfil para a pesquisa.
Se você orienta ou coordena um programa de pós-graduação
- Um mapeamento como esse ajuda a planejar formação a médio e longo prazo, em vez de apagar incêndio quando o estudante já está travado na escrita do artigo ou na preparação da defesa.
- Segundo Rafael, a escala também pode estimular a reflexão do próprio programa sobre “o que é fazer pesquisa no cenário brasileiro”, o que inclui rever se a formação oferecida cobre as etapas em que os estudantes mais relatam insegurança.

Como o instrumento foi validado
A escala não nasceu pronta. A primeira versão tinha 52 questões; após avaliação de três especialistas, caiu para 45; testes de compreensão com estudantes levaram a 42 itens, usados na etapa de validação estatística. Ao final, restaram 25 itens em cinco fatores.
O estudo envolveu 444 pós-graduandos brasileiros, com média de idade de 31,4 anos: 218 no doutorado, 203 no mestrado acadêmico e 23 no mestrado profissional, a maioria (306) matriculada em São Paulo. Os participantes foram divididos em dois grupos de 222 pessoas, um para testar como as questões se organizavam e outro para confirmar se essa estrutura se mantinha. Os pesquisadores também compararam os resultados com uma escala de autoeficácia geral já validada no Brasil, e encontraram relação positiva entre as duas, evidência de que a nova escala mede o que se propõe a medir.
Vale registrar o limite que o próprio artigo assume: a validação está restrita, por ora, a estudantes de programas brasileiros de mestrado e doutorado. Os autores indicam que a aplicação em outros contextos ainda precisa ser testada.
Onde isso encontra o método
O que essa escala nomeia, o Método V.O.E. (Velocidade, Orientação, Execução Inteligente) tenta resolver na prática: a Orientação é justamente saber em qual etapa da pesquisa você precisa investir energia agora, em vez de distribuir esforço igual em tudo. Quando você identifica que a insegurança está na análise de dados e não na escrita, você para de reescrever a introdução pela décima vez e vai estudar o método estatístico que está te travando. Faz sentido, porque a proposta da escala é justamente separar percepção de capacidade por tarefa, não medir talento em geral.
Próximos passos
- Reserve 10 minutos para listar, sozinha, as cinco frentes da pesquisa (projeto, revisão de literatura, análise de dados, pensamento crítico, divulgação e defesa) e dar uma nota de confiança para cada uma.
- Leve esse mapa para a próxima reunião com seu orientador ou orientadora, em vez de chegar só com “estou travada”.
- Se a lacuna for em uma etapa técnica específica (como a revisão sistemática da literatura), procure material dedicado a ela, não um curso genérico de “produtividade acadêmica”.
Se você está na fase de organizar o projeto e sente que a insegurança começa ali, vale ler Como usar a Plataforma Sucupira para escolher seu PPG, que ajuda a entender o ecossistema em que sua pesquisa vai se inserir antes mesmo de escrever a primeira linha.
Fonte: Escala ajuda a identificar dificuldades e potencialidades de pós-graduandos na formação científica, Jornal da USP
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Perguntas frequentes
O que é autoeficácia na pesquisa científica?
Quem pode usar a Escala de Autoeficácia para Pesquisa Científica?
A escala já está disponível para uso?
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