Relógio inteligente vai antecipar diagnóstico de Parkinson
Centro de pesquisa da Unicamp, FAPESP e Samsung quer usar smartwatches e anéis inteligentes para detectar sinais de Parkinson e problemas cardíacos antes
Um relógio de pulso comum vai virar, nos próximos anos, uma ferramenta de rastreio de doença de Parkinson. Em 3 de julho, a Unicamp, a FAPESP e a Samsung lançaram oficialmente o Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) Viva Bem: inteligência artificial para saúde e bem-estar. Um CPA é um modelo de parceria de pesquisa em que universidade, empresa e agência de fomento assinam um contrato longo, de até dez anos, para financiar ciência aplicada de forma contínua. Se você pesquisa saúde, computação ou engenharia, esse projeto acabou de abrir uma frente de trabalho relevante dentro da Unicamp, com investimento inicial de R$ 20 milhões.
O que aconteceu
O Viva Bem nasce de uma relação de mais de dez anos entre a Unicamp e a Samsung, que já mantinham um hub de inovação colaborativa havia cinco anos. Agora a parceria sobe de patamar e ganha a FAPESP como cofinanciadora. Segundo Rodolfo Jardim de Azevedo, coordenador geral de Tecnologias e Parcerias em Inovação da FAPESP, o modelo do CPA é um divisor de águas justamente pela duração: “não existe financiamento de dez anos no mundo por uma agência de fomento em um único contrato”, disse ele, explicando que a FAPESP assina cinco anos, renováveis por mais cinco.
O objetivo científico é ambicioso e específico: usar os sensores que já existem em smartwatches e smart rings (frequência cardíaca, pressão arterial, temperatura, condutividade elétrica da pele, composição corporal e movimento) para identificar, por meio de IA, sinais biológicos sutis de doenças antes dos sintomas aparecerem. Anderson Rocha, professor do Instituto de Computação da Unicamp e coordenador do Viva Bem, resumiu o propósito: “queremos, por meio desses dispositivos vestíveis cada vez mais populares e acessíveis, enxergar sinais invisíveis de doenças muito antes que os sintomas se tornem clinicamente evidentes”.
O centro já tem 11 frentes de aplicação mapeadas como prioritárias, e duas aparecem com mais detalhe na fala de Rocha: Parkinson e saúde cardiovascular. No caso do Parkinson, os algoritmos vão analisar tremores, padrão da marcha e padrões de sono para identificar indícios anos antes do diagnóstico clínico. Na saúde cardiovascular, a proposta é que o dispositivo funcione como um eletrocardiograma contínuo, capaz de sinalizar arritmias e riscos de infarto ou AVC a partir da variabilidade cardíaca.
Por que isso importa pra quem pesquisa
Esse não é um projeto fechado dentro de um laboratório isolado. Mais de 70 pesquisadores de diferentes unidades da Unicamp vão participar, o que abre espaço concreto de colaboração para quem está em áreas próximas. Vale mapear onde o seu tema de pesquisa encontra esse guarda-chuva:
- Se você está em Computação ou IA: o centro busca especificamente algoritmos “embarcáveis”, ou seja, que rodem direto no relógio ou no anel, com processamento em tempo real e aprendizado a partir de sinais brutos, sem depender só de rótulos manuais. É uma linha de pesquisa técnica bem definida.
- Se você está em Ciências Médicas ou Educação Física: o projeto envolve diretamente a Faculdade de Ciências Médicas e o Hospital de Clínicas da Unicamp, com foco em validação clínica dos sinais captados pelos dispositivos.
- Se você estuda ética em dados ou privacidade: o próprio coordenador do projeto reconheceu o risco. “Dado de saúde é a coisa mais íntima que existe”, disse Rocha, apontando a preocupação com vazamento de dados que poderia gerar discriminação em processos seletivos ou perda de emprego.
- Se você não está na Unicamp: vale acompanhar as publicações que sairão do centro, porque os métodos de IA aplicada à saúde preventiva discutidos aqui têm relação direta com bioética e saúde pública.
Se a sua pesquisa toca em algum desses pontos, esse é um projeto para acompanhar de perto, não só como notícia, mas como possível interlocutor.

O que sustenta a confiança nesse tipo de diagnóstico
Um dos aspectos mais interessantes do Viva Bem é que ele não trata a IA como caixa-preta. Rocha apontou duas diretrizes que vão guiar o desenvolvimento técnico: a primeira é abandonar a lógica de “padrão médio” da população em favor da variabilidade individual, ou seja, treinar o sistema para entender que cada corpo é único. A segunda é a explicabilidade: o sistema não pode só apontar um risco, ele precisa justificar por que chegou àquela conclusão. Segundo Rocha, “isso é fundamental para que o médico confie na sugestão da IA e tome decisões clínicas seguras”.
Essa exigência de explicabilidade é relevante para quem pesquisa IA aplicada em qualquer área da saúde: um modelo que só entrega um número de risco, sem justificativa, tem valor clínico limitado, porque quem decide (o médico, o próprio paciente) precisa entender o raciocínio por trás da resposta.
O projeto também deixa claro qual não é o objetivo: substituir a consulta médica. Rocha foi direto nisso: “nosso objetivo não é substituir o médico. Queremos apontar para o usuário quando ele deve procurar um especialista, de modo a garantir uma melhor qualidade de vida”. A vantagem central apontada pelo pesquisador é a continuidade: “diferentemente da medicina tradicional, que muitas vezes é baseada em dados episódicos, a IA permite o monitoramento 24 horas por dia, sete dias por semana”.
Próximos passos
O centro acabou de ser lançado, então ainda não há edital aberto para bolsas ou vagas específicas divulgado nesta notícia. Ainda assim, dá para se posicionar desde já:
- Se você é da Unicamp e pesquisa em Computação, Física, Engenharia Elétrica, Educação Física ou Ciências Médicas, procure o Instituto de Computação para saber como o CPA Viva Bem está estruturando as chamadas internas de participação.
- Acompanhe os canais da FAPESP e da Agência FAPESP (fonte original desta matéria) para editais vinculados ao centro, e verifique se o centro publicou alguma chamada específica de bolsas vinculada ao contrato.
- Se seu tema é IA aplicada à saúde, comece a mapear as 11 frentes de aplicação do centro (Parkinson e saúde cardiovascular são as duas detalhadas até agora) e veja onde sua pesquisa atual poderia dialogar com elas.
- Leia com atenção a parte de ética e privacidade de dados do projeto: qualquer proposta de colaboração vai exigir passagem por comitê de ética e consentimento informado dos participantes.
Projetos como o Viva Bem mostram como a fronteira entre tecnologia de consumo e pesquisa clínica está cada vez mais estreita, e isso muda o tipo de pergunta que vale a pena fazer no seu pré-projeto. Se você quer entender melhor como estruturar essas perguntas de pesquisa com mais clareza, dá uma olhada em Como usar a Plataforma Sucupira para escolher seu PPG.
Fonte: Novo centro de pesquisa usará relógios e anéis inteligentes para detecção precoce de doenças, Pesquisa para Inovação FAPESP
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Perguntas frequentes
O que é o Centro de Pesquisa Aplicada Viva Bem?
Como a inteligência artificial vai detectar doenças em smartwatches?
Quem pode participar das pesquisas do Viva Bem na Unicamp?
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