ABNT: Seções ou Capítulos, Qual Usar no Seu Trabalho
Pela ABNT NBR 14724:2024, o trabalho acadêmico se organiza em seções, não em capítulos. Veja como numerar, montar o sumário e revisar o texto.
Por que o sumário do seu trabalho parece bagunçado mesmo com a formatação certa
Você formatou tudo certo. Fonte Times New Roman, espaçamento 1,5, margens na medida. E ainda assim, quando olha o sumário, alguma coisa incomoda. Um trecho chama “Capítulo 3: Metodologia”. Duas páginas depois, você escreve “nesta seção vamos apresentar os dados”. A banca vai notar. E notar esse tipo de coisa é o que abre espaço pra questionar o resto.
A seção é a divisão numerada do texto acadêmico que organiza o conteúdo do assunto mais geral para o mais específico, pela numeração progressiva da NBR 6024. E aqui está o ponto que muita gente não sabe: pela ABNT NBR 14724:2024, a norma de trabalhos acadêmicos em vigor, o trabalho se organiza em seções, e a própria norma diz que ele não pode ser dividido em capítulos.
Muita gente aprendeu ABNT copiando um trabalho antigo, ou ouviu que “tanto faz, é só manter a consistência”. Desde a edição de 2024, não é mais tanto faz. Vou te mostrar o que a norma diz, como numerar cada nível e o que fazer se o seu programa ou a sua orientação pedirem outra coisa.
O que a norma realmente diz sobre seção
A NBR 14724 trata da apresentação dos trabalhos acadêmicos (TCC, dissertação, tese) e remete à NBR 6024 para a numeração progressiva das seções. Na edição de 2024, ao tratar dos elementos textuais (introdução, desenvolvimento e conclusão), a norma traz uma frase que encerra a discussão: “o trabalho acadêmico não pode ser dividido em capítulos; deve ser organizado em seções”.
Seção é o nome de cada parte em que o texto se divide. Cada uma recebe um indicativo numérico, em algarismo arábico, antes do título. E elas se encaixam umas nas outras, em níveis:
- Seção primária: a divisão principal do texto. 1 INTRODUÇÃO, 2 REFERENCIAL TEÓRICO, 3 METODOLOGIA.
- Seção secundária: a divisão dentro da primária. 2.1, 2.2.
- Seção terciária: a divisão dentro da secundária. 2.1.1, 2.1.2.
- Seção quaternária e quinária: 2.1.1.1 e 2.1.1.1.1. A orientação é não passar da quinária.
Cada nível detalha o assunto do nível acima. O desenvolvimento, que é a parte principal do trabalho, se divide em seções e subseções conforme o tema e o método pedirem. Aquilo que você chamaria de “capítulo 2” é, na linguagem da norma, a seção primária 2.
Isso derruba uma ideia que circula bastante: a de que a ABNT só cuida da numeração e deixa o nome livre, desde que você seja consistente. Consistência continua importando, mas na edição em vigor a palavra também está definida: seção.

Edição de 2011 e edição de 2024: por que tanta gente ainda escreve capítulo
Livro tem capítulo. A gente passa a vida lendo livro, e é natural levar a palavra para o próprio trabalho. E a maioria das pessoas aprende ABNT por modelo: o TCC de um colega, a dissertação de alguém do laboratório, um template baixado na internet. Isso é compreensível, a norma é seca e cara de acessar. Mas o modelo carrega o hábito de quem o fez, não necessariamente a regra.
Tem também a questão da edição. Muita gente aprendeu ABNT com a NBR 14724 de 2011, ou com trabalhos formatados enquanto ela valia. A frase explícita de que o trabalho acadêmico não pode ser dividido em capítulos é da edição de 2024, que é a que está em vigor. Se o modelo que você está seguindo foi feito antes dela, ele pode usar “capítulo” porque, quando foi feito, a norma ainda não trazia essa frase.
O hábito é tão forte que aparece até em manual de biblioteca já atualizado para 2024, que usa “capítulo” de passagem para falar das próprias partes enquanto ensina que o trabalho se organiza em seções. A palavra está entranhada no jeito como a gente fala de texto longo, né? Mas a regra de hoje tem uma resposta só: seção.
Como nomear e numerar as seções sem errar
Saber o nome resolve metade. A outra metade é a forma, que a NBR 6024 define e os manuais de biblioteca repetem:
- O número vem antes do título, alinhado à esquerda e separado dele por um espaço: 1 INTRODUÇÃO. O número já identifica a seção, então o título não leva “Capítulo 1” nem “Seção 1”.
- Nenhum sinal depois do número ou do título. Nada de ponto, hífen, travessão ou dois-pontos. É “1 INTRODUÇÃO”, e não “1. INTRODUÇÃO” ou “1 - INTRODUÇÃO”.
- Subseção leva o número da seção a que pertence, seguido de ponto e da sua ordem: 3.1, 3.2, 3.2.1.
- A seção primária abre página nova. Em trabalho só no anverso (a frente da folha), ela começa em nova página; em frente e verso, na página ímpar. O título fica na parte superior, separado do texto por um espaço de 1,5. Da secundária em diante, as seções seguem no fluxo do texto.
- O destaque diminui a cada nível (negrito, caixa alta, itálico, sublinhado) e se repete igual no sumário. A combinação de cada nível varia entre os manuais de biblioteca, então confira o da sua instituição.
- Título sem número fica centralizado. Resumo, sumário, referências, apêndices e anexos não recebem indicativo numérico.
Na prática, um sumário nesse formato fica assim (com o destaque de cada nível seguindo o manual da sua instituição):
- 1 INTRODUÇÃO
- 2 REFERENCIAL TEÓRICO
- 2.1 CONCEITO CENTRAL DA PESQUISA
- 2.1.1 Primeira abordagem do conceito
- 3 METODOLOGIA
- 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
- 5 CONCLUSÃO
- REFERÊNCIAS
Repare que não tem “Capítulo” em lugar nenhum. A hierarquia inteira está nos números.
O erro que mais aparece: o capítulo escondido no texto corrido
Muita gente acerta o sumário e esquece do resto. O sumário mostra “1 INTRODUÇÃO”, “2 REFERENCIAL TEÓRICO”, tudo como a norma prevê. Mas no corpo do texto a palavra sobrevive nas remissões internas: “neste capítulo”, “como discutido no capítulo anterior”, “o capítulo 4 apresenta os resultados”.
Para o texto ficar coerente com a organização em seções, essas frases mudam também. Fica “nesta seção”, “como discutido na seção anterior”, “a seção 4 apresenta os resultados”. Para as divisões internas, “na subseção 3.2” funciona bem. O texto é o mesmo, só que com o termo da norma, e a banca deixa de ver duas convenções brigando no mesmo trabalho.
Esse deslize costuma aparecer quando o trabalho é escrito em partes, ao longo de meses, sem revisão de terminologia no final. Cada trecho saiu num estado de cabeça diferente, e as duas palavras vão se acumulando sem que você perceba.
A solução é simples, ainda que exija disciplina: na organização do sumário, antes de escrever o texto corrido, trate as partes do trabalho como seções e subseções e use esses termos em toda referência à estrutura, da introdução à conclusão. Faz sentido? Acertar o termo no começo poupa uma caçada de ocorrências no fim.
Como revisar isso no seu texto sem reler tudo do zero
Você não precisa ler o trabalho inteiro pra encontrar o problema. Use a busca do seu processador de texto pelas palavras “capítulo”, “capítulos” e pela abreviação “cap.”. Para cada ocorrência, faça uma pergunta só:
- Ela se refere a uma parte do seu próprio trabalho? Troque por “seção” ou “subseção” e confira se o número citado bate com o sumário.
- Ela se refere ao capítulo de um livro que você citou? Deixe como está. Quando você cita o capítulo de uma obra, no texto ou nas referências, a palavra descreve a estrutura do livro de outra pessoa, não a do seu trabalho.
Inclua na busca as notas de rodapé, onde também pode haver remissões do tipo “ver capítulo 2”.
Depois, revise o sumário separadamente. Ele enumera as seções na mesma ordem e com a mesma grafia em que elas aparecem no texto, com os números alinhados à esquerda e cada título com o mesmo destaque que tem no corpo do trabalho. Se o seu sumário é automático, corrija os títulos no texto e atualize o sumário, em vez de editar o sumário à mão.
Uma dica prática: depois da troca, releia só os títulos do sumário, em sequência. Se a numeração sobe e desce de nível sem saltos e a leitura isolada já parece coerente, a estrutura está sólida antes mesmo de você revisar o corpo inteiro.
O que fazer quando o manual do programa ou a orientação pedem outra coisa
Muitos cursos e programas de pós-graduação têm manual próprio de normalização, que adapta a ABNT. Dentro do programa, é esse manual que a secretaria e a banca costumam consultar na hora de aprovar o seu depósito, então ele tende a prevalecer ali.
Se o manual do seu programa determina por escrito uma forma diferente, siga o manual no programa e guarde o trecho exato onde ele diz isso. Antes, porém, confira duas coisas. A primeira é a data: um manual escrito antes da NBR 14724:2024 não tinha como incorporar a frase sobre capítulos, e pode estar desatualizado nesse ponto. A segunda é se ele traz “capítulo” como regra ou só usa a palavra de passagem, num exemplo ou numa explicação. São coisas bem diferentes.
Quando não existe manual, ou ele não fala do assunto, e quem te orienta pede “capítulo”, converse. Não precisa virar disputa. Mostre a frase da edição de 2024, pergunte se o programa tem alguma regra escrita própria e combine o termo antes de mexer no trabalho inteiro.
Registre o que foi combinado numa nota no início do documento de rascunho. Parece detalhe, mas evita que você esqueça a própria decisão no meio da escrita, quando o cansaço já apagou a lembrança da conversa.
O ponto que resolve a maior parte da confusão
Pela ABNT NBR 14724:2024, o trabalho acadêmico se organiza em seções, numeradas pela NBR 6024. A norma é explícita: o trabalho não pode ser dividido em capítulos, por mais que a palavra apareça em livro, em modelo antigo e na conversa do laboratório. Se o manual do seu programa disser outra coisa por escrito, é ele que costuma valer ali dentro, e a conversa com a orientação, com a norma na mão, resolve o resto.
Se você chegou até aqui só pra saber “qual dos dois eu uso”, a resposta é: seção. Salvo regra escrita do seu programa, troque hoje, no sumário e no texto corrido, antes de escrever mais uma linha. Sai bem mais barato do que caçar a palavra na véspera do depósito.
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Perguntas frequentes
Posso dividir meu TCC ou minha dissertação em capítulos?
Como numerar seção primária, secundária e terciária na ABNT?
Por que corrigiram 'capítulo' para 'seção' no meu trabalho?
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